As três da manhã
Sobre a hora em que o pensamento volta
São três e quatorze. O quarto está escuro. Você lembra, com uma nitidez que parece engenharia, de uma frase que alguém te disse há quatro anos. Lembra do tom. Lembra da mesa onde estavam. Lembra do que respondeu, e do que deveria ter respondido. Faz a conta de quantas conversas teve durante o dia, e a única que volta inteira é essa, de quatro anos atrás.
Não é insônia.
Quer dizer, é insônia, no sentido técnico. Mas se você procurar técnica pra dormir, vai dormir mal de outro jeito. Porque o problema não é o sono. O problema é a hora.
A psicanálise tem um termo antiquado pra isso, trabalho de luto. Costumam usar quando alguém morre. Mas luto, no consultório, é qualquer coisa que precisou acabar e ainda não foi sepultada. Uma conversa que ficou em aberto. Um cargo que você perdeu, ou que perdeu você. Um casamento que terminou cedo demais ou tarde demais. Uma versão sua que morreu numa segunda-feira de 2018 e nunca virou notícia.
O luto não acontece de dia. De dia tem agenda, tem ruído, tem outros assuntos. Luto pede madrugada. Pede a hora em que ninguém compete pela sua atenção. Em que o silêncio é grande o suficiente pra caber tudo o que não foi dito.
Por isso você acorda. Não é falha de melatonina. É um corpo que aprendeu, em algum lugar onde a linguagem dele mora, que existe um trabalho a ser feito, e que ele só pode ser feito ali, naquele canal, naquela hora.
A primeira coisa que se faz quando acorda às três é tentar dormir de novo. Pega o celular. Rola feed. Vê notícia. Tenta cansar a cabeça com algo que pareça ler, mas que na verdade só ocupe. Não funciona. Quando você desliga a tela e fecha os olhos, a frase de quatro anos atrás volta. E o tempo entre uma e outra tentativa só tornou a frase mais clara.
Esse é o detalhe importante. A frase está esperando. Não vai embora. Quanto mais você foge, mais nítida ela fica.
A segunda coisa que se faz é pensar que tem alguma coisa errada com você. Por que ninguém mais lembra disso, e eu lembro? Por que essa conversa, e não as outras? Por que agora? As perguntas servem pra te tirar do meio. Como se o problema fosse técnico: meu cérebro está com defeito, preciso consertar. Mas seu cérebro não está com defeito. Ele está fazendo o trabalho que ninguém de dia te deixa fazer.
Quem acorda às três da manhã pensando em algo de quatro anos atrás está, sem saber, sustentando uma vigília. Está dizendo, em silêncio, que aquela conversa precisava ter sido fechada e nunca foi. Que aquela pessoa devia uma resposta, e que não vai dar mais. Que uma versão de si que ficou guardada naquela cena ainda está esperando autorização pra ser enterrada.
Em consultório, a gente não chama isso de problema. Chama de escuta. Você está se escutando. A diferença é que está se escutando em uma hora em que ninguém mais escuta junto.
A saída — e em análise eu uso essa palavra com cuidado, porque “saída” sugere que tem um destino claro, e nem sempre tem — passa por deixar a frase aparecer.
Não fugir. Não tentar dormir por cima. Não procurar técnica de respiração no aplicativo. Acender o abajur. Pegar um caderno. Escrever a frase. Não a frase do outro. A sua frase. Aquela que você devia ter dito naquela mesa de 2021 e não disse. Escreva sem precisar enviar pra ninguém. Sem precisar entender. Sem precisar concluir.
O que acontece, depois de algumas semanas fazendo isso (e isso não é prescrição, é descrição clínica), é que a frase começa a perder densidade. Não porque você a “resolveu”. Porque ela finalmente foi dita. Não importa que ninguém tenha lido. Quem precisava ler era você.
Aí o sono volta. Não como antes. Volta diferente. Você ainda acorda às três, de vez em quando, mas agora não tem mais frase esperando. Tem só silêncio. Aí você dorme de novo.
Quem chega ao consultório com queixa de insônia geralmente sai entendendo que não era insônia. Era luto, e era antigo. Era a hora em que o corpo pedia espaço pra um sepultamento que ninguém da família autorizou.
A análise não te ensina a dormir. Ela te oferece outro lugar onde a frase pode aparecer, com testemunha, no horário que você combinar com o seu trabalho. Quando isso acontece, a madrugada volta a ser madrugada. Hora de dormir. Não mais hora de se escutar sozinho, no escuro.
Se você está lendo isso às três da manhã, fecha o celular. Acende o abajur. Pega o caderno.
A frase está te esperando.